“Eu queria que as palavras […]
atravessassem muros,
fizessem saltar fechaduras,
abrissem janelas.“Michel Foucault
Parafraseando Foucault, eu queria que o canto atravessasse muros e abrisse janelas, mas acredito que ele já tenha feito isso.
Você já pensou na possibilidade de contar a história de uma cidade, de uma civilização, de um povo, de um indivíduo, através da música? Através da produção musical que aquele período gerou? Ou através da tradição musical (oral) que aquele povo produziu?
Pois a música também é um reflexo histórico de um tempo, apesar das dificuldades historiográficas de inseri-la como documento de uma época, a música é um registro social fundamental para se entender a sociedade.
Dotada de uma escrita muito particular e de uma complexidade teórica, ela dialoga com a história e o historiador de diversas maneiras, como por exemplo, em registros que tratam e comentam a música. Nas palavras dos historiador José Geraldo Vinci de Moraes e do historiador e músico Cacá Machado: “ ….a música não se constitui apenas como som, silêncio e ritmo, mas também tudo aquilo que se escreve e se diz sobre ela, situando-se assim também no mundo textual e aparece como parte indissociável da construção do mundo de ideias e das culturas.” (in Música em conserva – José Geraldo Vinci de Moraes e Cacá Machado)

No Brasil, falar de música popular é falar de uma história rica em ritmos, melodias, e na constante tentativa de preservação dessa memória. Na segunda metade do séc XIX a memória da música brasileira foi registrada em partituras, foram polcas, lundus, maxixes, criando a “febre do piano”,editoras, como a Quaresma traziam edições de letras de modinhas e canções, mas a partir de 1902 o registro fonográfico entrou com tudo no Brasil, a Casa Edson é um brilhante exemplo disso.
Na década de 20 com a ascensão da Rádio, começaram a surgir também os primeiros colecionadores, que preservavam esses registros, antes da idealização de grandes acervos, os esforços humanos de preservação da memória da música ajudaram na construção da história.
O radialista Almirante (1908-1980) foi um dos primeiros colecionadores, seu acervo hoje está no MIS (Museu da Imagem e do Som) do Rio de Janeiro juntamente com o acervo do jornalista Lucio Rangel com 16 mil discos em 78 rotações, importantíssimos para reconstrução da História da Música Brasileira e compreensão de um Brasil cuja história social, cultura e política está intrinsicamente ligada a sua história musical.
O IMS (Instituto Moreira Salles) guarda também em seu acervo os arquivos de José Ramos Tinhorão, Humberto Franceschi e Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, todos pesquisadores e colecionadores fundamentais na construção e entendimento da história da música popular urbana no Brasil, temos ainda o Arquivo Sonoro da Biblioteca Nacional, a Funarte com o Brasil Memórias das Artes que inclui o Projeto Almirante, o Projeto Pixinguinha, a Discoteca Oneyda Alvarenga do Centro Cultural São Paulo, ficando somente no eixo Rio-São Paulo, mas sabendo que outras grandes capitais brasileiras possuem também acervos importantíssimos, fora as inúmeras e incontáveis coleções pessoais espalhadas pelo Brasil que talvez um dia chegarão aos acervos públicos para a sua função mais nobre de disponibilização ao público.
O Acervo do Coralusp que estreia hoje um blog de informações e difusão cultural da Música brasileira, tenta no campo das tradições oral, cantar uma pequena, mas significativa história da Música Coral, teremos um catálogo online do nosso acervo, um diálogo com a história e com a memória trazendo a ideia de que a memória é matéria viva, que acontece a cada instante, a presença de mundo abarca um pertencimento no tempo, que o surgimento desses resgates seja algo permanente na nossa história social e musical.
Christiane Souza